Esta não é mais uma carta de amor nem qualquer crônica sentimental, posso defini-la como a expressão de um coração cansado. Com estas singelas palavras, não quero que chore, afinal, todos são culpados. Com este desabafo, não quero que sinta arrependimento, nunca é tarde para buscar soluções. Apenas peço aqueles que lerem estes meus versos tristes que não se comovam nem percam as esperanças.
Sou apenas uma jovem vivenciando a primavera, estação das flores repletas de vidas, do entusiasmo incontido, dos desejos incompreendidos. Reencontro a minha vida no passado, que tão docemente disse adeus. Ao lembrar-me da minha infância, enxergo as brincadeiras de boneca, os aniversários comemorados, os colegas de escola e, principalmente, o carinho dos meus pais, que souberam me amar. Ah! Saudade... Tempo de sonhar e viver.
Com a pureza em ainda não conhecer a maldade do mundo, pensava que as outras crianças tivessem a fantasia guardada no seu interior, a magia de estar sempre contente. No entanto, a realidade era bem diferente do meu mundinho de contos de fadas. Aos 20 anos, começo a distinguir os vilões (omissos) e os heróis (lutadores). Sozinha, não conseguirei mudar outras mentes e opiniões. Apenas sei que ao invés de ouvir o lado racional e egoísta, escuto o meu coração sensibilizado.
Era apenas um dia como qualquer outro. Sob o sol de abril, tomava o ônibus para ir à faculdade. Os passageiros estavam bem acomodados com seus fones de ouvido, enquanto o motorista prestava atenção no trânsito. Em um sinal, abriu-se a porta da frente e um menino entrou. Além do semblante fatigado, aquele olhar incolor, sem perspectiva de um futuro, ficou imortalizado na minha alma.
Não conseguia me desvencilhar daquele garoto, que embora tivesse nove aninhos, parecera mais velho. Seu corpo esquelético vinha em minha direção para tentar coordenar o meu sentido, inerte. Seu silêncio gritava aos meus ouvidos por socorro. Sua pele ardida de calor asfixiava o meu peito. Em frações de segundos, enxergava as cicatrizes daqueles pés descalços e os calos da própria batalha pela sobrevivência.
Vencendo a timidez, o menino pronunciava suas primeiras palavras no veículo, tentando vender um saquinho de balas. Com seus dedos miúdos e algumas unhas quebradas, entregava seus bombons e contava um pouco de sua história, enfatizando o desemprego dos pais. Descontente, comecei a conversar com ele, que mesmo encabulado, sentou ao meu lado.
José Eric não era apenas um garoto, já se sentia um verdadeiro homem, que aceitava suas derrotas com a cabeça erguida. Quando decidiu desabafar, suas lágrimas rolaram pela face escura. O tempo parecia parar diante do seu canto, vazio. Seus olhos demonstravam o que o seu rostinho triste sequer escondia: a miséria. O pouco dinheiro que ganhava, cerca de R$ 5,00 por dia, dava para comprar o leite dos irmãos mais novos.
Retrospectos da minha vida. Tive tudo nas mãos para seguir uma trajetória ao menos benéfica e tolerável. Agarrei as chances que apareceram no caminho e decorei a minha vida com amor. E aquele menino? Que oportunidades lhe foram dadas? Não encontro respostas, tampouco, conformação.
Alguns governantes e a própria sociedade se mantêm cegos diante do número de crianças nas ruas, trabalhando pelo pão dignamente. É importante enfatizar que a hipocrisia que um político tem ao fazer uma promessa e não cumpri-la é a mesma com que certas pessoas fecham os olhos ao ver um menino pedindo uma ajuda. Solidarizar-se não somente tirar dos bolsos uns trocados. Uma conversa seria um ótima forma de terapia, um abraço demonstraria carinho, afinal, gestos são mais humanos.
Buscava em minha mente soluções para aliviar o cansaço que ele sentia. Primogênito, filho de um casal paupérrimo, trabalhava a manhã toda e um pedaço da tarde. Sem muita resistência, chegava em casa exausto, louco para “devorar” um almoço completo, mas tudo o que tinha no prato era um pouco de arroz e meia colher de feijão.
Ainda um pouco abatido, me falou que guarda bem em seu peito os sonhos, mesmo que a vida não lhe desse chance de sonhar. Com seu ar melancólico, disse que tem orgulho de trabalhar dignamente, mesmo que a luta seja difícil. Com sua sede de vitória, continua sendo otimista; mesmo que o destino conspire contra. Com seu andar cauteloso, levanta-se de qualquer queda, mesmo que os seus passos tropecem no chão. Apesar de tantos pesares, ele planeja alcançar a tão sonhada felicidade.
A “viagem” acaba e José Eric, exemplo de coragem nesta árdua batalha que é a vida, desce. Contaminada pela tamanha importância do menino, digo-lhe então um simples “até logo”. Assim que outro dia amanhecer, poderei encontrá-lo no olhar de outra criança ou na lembrança da sua face, que simboliza puramente a tentativa de ser feliz.
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
Poderíamos....
Pode não ter sido hoje...Pode ser que não seja nunca mais...
O que restou de nós dois?
O que poderíamos ter, o tempo desfez.
O que poderíamos amar, se perdeu.
O que poderíamos fazer, não foi feito.
O que poderíamos chorar, já secou.
O que poderíamos sorrir, se desperdiçou.
O que poderíamos viver, disse adeus.
O que poderíamos planejar, não sonhamos.
O que poderíamos cantar, desafinou.
O que poderíamos cessar, se viciou.
O que poderíamos ter sido, não fomos.
Pode ser que seja amanhã ou em um futuro distante...
As mágoas o tempo cura...
Os erros, consertamos.
O presente...reconstruimos
O que restou de nós dois?
O que poderíamos ter, o tempo desfez.
O que poderíamos amar, se perdeu.
O que poderíamos fazer, não foi feito.
O que poderíamos chorar, já secou.
O que poderíamos sorrir, se desperdiçou.
O que poderíamos viver, disse adeus.
O que poderíamos planejar, não sonhamos.
O que poderíamos cantar, desafinou.
O que poderíamos cessar, se viciou.
O que poderíamos ter sido, não fomos.
Pode ser que seja amanhã ou em um futuro distante...
As mágoas o tempo cura...
Os erros, consertamos.
O presente...reconstruimos
sábado, 24 de novembro de 2007
Como dizia o poeta
Quem já passou por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu, ai
Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não
Não há mal pior
Do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa
É melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir?
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão
Vinicius de Moraes
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu, ai
Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não
Não há mal pior
Do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa
É melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir?
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão
Vinicius de Moraes
Para uma menina com uma flor
Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.
E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.
E porque você quando sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar.
E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, como uma santa moderna, e anda lento, a fala em 33 rotações mas sem ficar chata.
E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der aquela paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.
E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca.
E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta mas não concorda porque é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho.
E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara– na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando.
E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.
E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as outras mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê.
E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse, cantando sem voz aquele pedaço em que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora – tão purinha entre as marias-sem-vergonha – a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nestas montanhas recortadas pela mão presciente de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.
E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.
Vinicius de Moraes
E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.
E porque você quando sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar.
E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, como uma santa moderna, e anda lento, a fala em 33 rotações mas sem ficar chata.
E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der aquela paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.
E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca.
E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta mas não concorda porque é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho.
E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara– na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando.
E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.
E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as outras mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê.
E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse, cantando sem voz aquele pedaço em que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora – tão purinha entre as marias-sem-vergonha – a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nestas montanhas recortadas pela mão presciente de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.
E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.
Vinicius de Moraes
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