segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Lágrimas da miséria

Esta não é mais uma carta de amor nem qualquer crônica sentimental, posso defini-la como a expressão de um coração cansado. Com estas singelas palavras, não quero que chore, afinal, todos são culpados. Com este desabafo, não quero que sinta arrependimento, nunca é tarde para buscar soluções. Apenas peço aqueles que lerem estes meus versos tristes que não se comovam nem percam as esperanças.

Sou apenas uma jovem vivenciando a primavera, estação das flores repletas de vidas, do entusiasmo incontido, dos desejos incompreendidos. Reencontro a minha vida no passado, que tão docemente disse adeus. Ao lembrar-me da minha infância, enxergo as brincadeiras de boneca, os aniversários comemorados, os colegas de escola e, principalmente, o carinho dos meus pais, que souberam me amar. Ah! Saudade... Tempo de sonhar e viver.

Com a pureza em ainda não conhecer a maldade do mundo, pensava que as outras crianças tivessem a fantasia guardada no seu interior, a magia de estar sempre contente. No entanto, a realidade era bem diferente do meu mundinho de contos de fadas. Aos 20 anos, começo a distinguir os vilões (omissos) e os heróis (lutadores). Sozinha, não conseguirei mudar outras mentes e opiniões. Apenas sei que ao invés de ouvir o lado racional e egoísta, escuto o meu coração sensibilizado.

Era apenas um dia como qualquer outro. Sob o sol de abril, tomava o ônibus para ir à faculdade. Os passageiros estavam bem acomodados com seus fones de ouvido, enquanto o motorista prestava atenção no trânsito. Em um sinal, abriu-se a porta da frente e um menino entrou. Além do semblante fatigado, aquele olhar incolor, sem perspectiva de um futuro, ficou imortalizado na minha alma.

Não conseguia me desvencilhar daquele garoto, que embora tivesse nove aninhos, parecera mais velho. Seu corpo esquelético vinha em minha direção para tentar coordenar o meu sentido, inerte. Seu silêncio gritava aos meus ouvidos por socorro. Sua pele ardida de calor asfixiava o meu peito. Em frações de segundos, enxergava as cicatrizes daqueles pés descalços e os calos da própria batalha pela sobrevivência.

Vencendo a timidez, o menino pronunciava suas primeiras palavras no veículo, tentando vender um saquinho de balas. Com seus dedos miúdos e algumas unhas quebradas, entregava seus bombons e contava um pouco de sua história, enfatizando o desemprego dos pais. Descontente, comecei a conversar com ele, que mesmo encabulado, sentou ao meu lado.

José Eric não era apenas um garoto, já se sentia um verdadeiro homem, que aceitava suas derrotas com a cabeça erguida. Quando decidiu desabafar, suas lágrimas rolaram pela face escura. O tempo parecia parar diante do seu canto, vazio. Seus olhos demonstravam o que o seu rostinho triste sequer escondia: a miséria. O pouco dinheiro que ganhava, cerca de R$ 5,00 por dia, dava para comprar o leite dos irmãos mais novos.

Retrospectos da minha vida. Tive tudo nas mãos para seguir uma trajetória ao menos benéfica e tolerável. Agarrei as chances que apareceram no caminho e decorei a minha vida com amor. E aquele menino? Que oportunidades lhe foram dadas? Não encontro respostas, tampouco, conformação.

Alguns governantes e a própria sociedade se mantêm cegos diante do número de crianças nas ruas, trabalhando pelo pão dignamente. É importante enfatizar que a hipocrisia que um político tem ao fazer uma promessa e não cumpri-la é a mesma com que certas pessoas fecham os olhos ao ver um menino pedindo uma ajuda. Solidarizar-se não somente tirar dos bolsos uns trocados. Uma conversa seria um ótima forma de terapia, um abraço demonstraria carinho, afinal, gestos são mais humanos.

Buscava em minha mente soluções para aliviar o cansaço que ele sentia. Primogênito, filho de um casal paupérrimo, trabalhava a manhã toda e um pedaço da tarde. Sem muita resistência, chegava em casa exausto, louco para “devorar” um almoço completo, mas tudo o que tinha no prato era um pouco de arroz e meia colher de feijão.

Ainda um pouco abatido, me falou que guarda bem em seu peito os sonhos, mesmo que a vida não lhe desse chance de sonhar. Com seu ar melancólico, disse que tem orgulho de trabalhar dignamente, mesmo que a luta seja difícil. Com sua sede de vitória, continua sendo otimista; mesmo que o destino conspire contra. Com seu andar cauteloso, levanta-se de qualquer queda, mesmo que os seus passos tropecem no chão. Apesar de tantos pesares, ele planeja alcançar a tão sonhada felicidade.

A “viagem” acaba e José Eric, exemplo de coragem nesta árdua batalha que é a vida, desce. Contaminada pela tamanha importância do menino, digo-lhe então um simples “até logo”. Assim que outro dia amanhecer, poderei encontrá-lo no olhar de outra criança ou na lembrança da sua face, que simboliza puramente a tentativa de ser feliz.

Um comentário:

Anônimo disse...

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